Vou contar uma estória que aconteceu comigo certa vez, voltando de uma canja num bar.
Era um domingo frio e fui no Silzeu’s Bar tomar umas e outras e o Ivo Rodrigues (Blindagem) estava cantando e tocando guitarra no pequeno palco improvisado. Depois de umas doses eis que ouço meu nome no alto-falante. Ele pediu minha presença pra cantar (enquanto ia no banheiro mijar). Fui, meio alto já, mas fui! Cantei umas canções novas minhas que tinha acabado de compôr e algumas clássicas do Who, Beatles etc... até aí tudo bem.
Desci do palquinho e fui pro bar, onde todos os bebuns fizeram questão de me pagar mais uns goles e só fui embora quase 3h da 'madruga'. Saí do bar, entrei no Uno Mille que demorou a pegar e fui a 10km/h pra casa. Nada nem ninguém na rua aquela hora.
Mas quando estava a três quadras do portão de casa, passei sem perceber por um pedregulho que raspou todo o carro por baixo.
- Putz, fodeu!... pensei. E parei pra ver o estrago ali mesmo, na rua.
No mesmo instante aparece outro Uno Mille e pára ao meu lado, de onde descem três sujeitos com colete da polícia, mas dando voz de assalto. E todos apontando armas na minha direção. Num gesto The Flash, entrei no carro, dei a partida, um 360° que nunca imaginei que pudesse fazer e acelerei tudo o que pude. Eu só ouvia os tiros e acelerava mais e mais. Depois de entrar na contramão, cruzar ruelas e tentar despistá-los, relaxei e diminuí a velocidade.
De repente ressurge na escuridão dois faróis vindo em sentido contrário. Eram eles, lógico! Me cercaram e me renderam, sempre ameaçando com a arma na minha cara. Saí do meu Uno e fui pro banco de trás do Uno deles. Me levaram numas quebradas onde só haviam mato e favelas em volta. Todos apontaram a arma engatilhada na minha cabeça. Nisso o mais velho veio e me ameaçou:
- Tu vai morrer! Passa a grana aí, vadio!
- Mas eu tô duro moço, bebi tudo no bar...
- Cala boca! Ah! Tá duro é? Então vai morrer bebum lazarento!
- Pelo amor de Deus, moço! Não puxa esse gatilho! Damos um jeito...
Nisso eu olhei pro painel e percebi que a luzinha da reserva estava acesa, e tive uma luzona.
- Olha meus senhores! Eu percebi que vocês estão sem combustível. Me deixem no Posto Texaco da via rápida que vocês me encontraram, encham o tanque e depois eu me acerto com o frentista, conhecido meu. Pode ser?
Eles saíram do carro, conversaram uns segundos do lado de fora e voltaram com o “OK” mais emocionante e sensacional da minha vida.
Na volta, no caminho pro posto, fui de carona no meu Uno e o velho bandido dirigindo. Nisso ele falou:
- Vamos abastecer e te apagar depois, ta ligado?
- Pô, moço, não faz isso! Sou cantor, levo alegria pra pobre e pra rico. Pra ladrão e pra polícia também...
- Ah, você é cantor? Então canta aí! Se cantar mal, desafinar ou falar merda, MORRE!
- Mas e se você curtir?
- Daí você sai vivo, piá de bosta!
Me concentrei, pedi permissão pra abrir o porta luvas e pegar o microfone enquanto pensava numa música que o desgraçado gostasse.
E comecei:
“Quando, você se se-pa-rou de mim;
Quase que minha vida teve um fim.
Sofri, chorei, taaaaanto que nem sei;
Tuuuuuudo o que passei,
Com você, com você! uou uou uou!”
E não é que ele começou a batucar no volante e cantar junto comigo? Fiquei agradecendo aos céus e eternamente ao Roberto Carlos, que agrada todo mundo mesmo!
Por essa nem eu esperava! “Quando”, fui salvo pelo Rei!!!
Abs
Fabio Elias